UNS VÃO À PRAIA. EU VOU AO MAR. PORQUE SOU DO MAR... O MAR, AOS QUE SÃO DO MAR: ODOYÁ! ODOYÁ!
Aquários de tubarões não inundam os meus pés. Só quero o vômito da minha própria vazante. Porque, sou Roberta Aymar...
TECIDO VIVO!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Clarice Lispector: Tecido Vivo!

Clarice Lispector
(Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — 
Rio de Janeiro 09 de dezembro de 1977)

9 de Dezembro de 2010:
33 anos da morte da escritora 
Clarice Lispector




Visão de Clarice

(Por Carlos Drummond de Andrade)


Clarice,

Veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.
Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.
Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.
Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.


*******

 Que Viva, Haia! Que Viva Clarice!

Que Viva Lis Pector!


Clarice Eternizada: Imagens & Palavras

Fotografias





















Documentos Pessoais

Clarice: Credenciada, 
sobretudo, para a vida!







Na Captura do Olhar do Artista

Clarice Lispector
 Pela Paleta de Giorgio de Chirico






Desenho-Desígnio
  
Clarice Caricaturada e Cartunizada













Escultura

Pétrea Clarice: Clarice Esculpida

Monumento à Escritora Clarice Lispector 
(autoria do artista plástico Demétrio) 
A escultura na Praça Maciel Pinheiro está situada em frente ao antigo casarão onde a escritora morou na sua infância, no Bairro da Boa Vista, outrora reduto judaico.
Atualmente, o monumento integra o complexo escultórico denominado "Circuito dos Poetas",
  distribuído em pontos estratégicos do nicho central da cidade do Recife.

Escultura de Clarice Lispector - Demétrio



Foto: Nivaldo Almeida, 2009.


Praça Maciel Pinheiro e antigo sobrado (esquina) onde morou a menina Clarice Lispector
Foto: Roberta Aymar (Acervo Particular), 2008.


In Memoriam

(Clarice em Textos)

Crônicas para Clarice







"Clarice e Eu: Amantes do Passado"
(Por Alvaro Pacheco Rodrigues)



Alvaro Pacheco RodriguesComentário de Alvaro Pacheco Rodrigues em 20 novembro 2008 às 8:15
CLARICE E EU: AMANTES DO PASSADO

Jamais consegui pensar em Clarice Lispector como (apenas) uma mulher. Ela sempre me pareceu alguém que transcende o gênero e se situa naquele andar-de-cima onde homens e mulheres deixam de sê-lo e se (con)fundem no estado pleno, ainda que impreciso, do Ser.

Foi no tempo em que eu buscava, estudando na Universidade, me tornar um historiador, que descobri Clarice em “A paixão segundo GH”, pouco depois dessa obra chegar às livrarias.

Assim começou nosso namoro mórbido (nem poderia deixar de ser mórbido, em se tratando dela), que eu condimentava com a poesia de Baudelaire.

Mas foi em “Perto do coração selvagem” que a tornei minha amante, mesmo sabendo que ela me seria uma amante infiel. E quando me perguntava a causa dessa atração fatal, me vinha sempre a mente a frase dela que se me tornara querida: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.

Por um bom tempo, acreditei (ou desejei) que aquilo que desejava, mesmo sem conseguir defini-lo, eu encontraria em Clarice. E se, não raro, deixava de entender o que ela escrevia, não me sentia abatido ou frustrado, antes pelo contrário, até porque “...entender é sempre limitado, mas não entender pode não ter fronteiras.”. Se ela confessava ser “...muito mais completa, quando não entendo”, eu fazia minhas suas palavras e tentava me satisfazer com isso.

Àquele tempo, eu também estava em processo de “coser pra dentro”, mas ardia de desejo voluptuoso de correr descalço sobre o asfalto escaldante, despindo-me sempre que relampejava, para que nenhum trecho de meu corpo deixasse de ser molhado pelo temporal que haveria de vir.

Se Joana olhava as galinhas e pensava nas minhocas (há quem prefira observar formigas);eu me entregava a observar pessoas, buscando nelas aqueles pontos-de-contato comigo, aquilo que (segundo me fora ensinado) nos tornava iguais, irmanados na mesma condição humana. Mas as observava de longe, porque me parecia poder perceber melhor do que chegando perto (Caetano diria, bem depois, que “de perto ninguém é normal”).

Chegar perto de Clarice, tentar entender aquele quarto escuro (terror das crianças) onde ela existia ... nem pensar. Ninguém o conseguiria. Aliás, nem ela mesma: “Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim”.

Uma imensa geografia brasileira me separava dela, mas ainda que vivêssemos na mesma cidade e me fosse dado conhecê-la pessoalmente, acho que haveria de preferir me manter distante. Podia amá-la, mas sabia que não conseguiria conviver com aquela mulher “irritável”, aquela senhora das palavras, arma terrível se usada para ferir.

Quando eu transava com Clarice, no leito dos livros que ela escrevia, por vezes a flagrava numa mentira. Todavia isso não me incomodava. Todo escritor (poeta ou romancista) precisa mentir, porque a mentira (ou uma “verdade inventada”) é inerente à criação. Por isso, quando ela dizia que gostava “de um modo carinhoso” do “malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça”, eu não a levava a sério. O alçapão de um escritor é se deixar seduzir pelas próprias palavras, sobretudo quando sugerem imagens impressionantes.

Então chegou o dia em que senti necessidade de fazer de toda a angústia existencial presente no mundo interior de Clarice (e no meu), plataforma para um “estar no mundo”
Diante de “... enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever”, eu começava a preferir o dizer indignado de José Régio: “Se o que busco saber, ninguém me responde, por que me repetis: Vem por aqui?

Estar com Clarice fazia de mim alguém ainda mais solitário do que sempre fui e, de repente, a frase de um cartaz numa passeata estudantil - “Só sente solidão quem não participa das lutas de seu tempo” - me sacudia para a realidade de minha época. Época de angústias mais concretas, expressa em gritos dos torturados nos porões da Ditadura Militar. Sem deixar de sentir, eis que se impunha fazer, por pouco que fosse, porém mais do que apenas vociferar contra a injustiça e a tirania, em mesas de bar regadas a “Cuba Libre”.

Aposentei Clarice em minha biblioteca. Não li seu último livro, “A hora da estrela”, agora tratado como seu romance mais famoso. Como a amante que um dia acampou em meu coração e de lá nunca se foi inteiramente, eu a conservo como uma relíquia de meu passado, uma dentre outras saudades que eu, às vezes, gosto de ter.

Porém, mesmo tendo oficiado nossa “cerimônia de adeus” (parodiando Simone de Beauvoir), nunca deixei de cultivar uma certa “claricefilia”. De alguma forma, ela se manteve sempre perto do meu “coração selvagem”. Talvez por isso, em meu acanhado blog, botei esta frase sua:

Já cai inúmeras vezes, achando que não iria me soerguer. Já me reergui inúmeras vezes, achando que não cairia mais






"Porque o dia certo é o hoje...
ou A Descoberta do Mundo”
(Por Roberta Aymar)


8 de dezembro. Feriado santo em Recife, dia de Nossa Senhora da Conceição. Em outras épocas, “menos ortodoxas” ou “mais heterodoxas” – não sei muito bem, confusa que ando nesses tempos governados por tantas “politizadas consciências”, era possível se ouvir também, mesmo que abafadamente, a batida do tambor para Iemanjá- "Yèyé omo ejá" ("Mãe cujos filhos são peixes"), Rainha do Mar, Orixá de muitas águas, que segundo os que já iniciados foram em seus mistérios, que não ouso questionar, me governa ao lado de outra Senhora – Iansã, a de Oyá, Senhora dos ventos e das tempestades, armas, encantamentos e mistérios outros.

...E amanheceu chovendo. Acho que de tanto eu desejar. Ontem à noite à janela do meu quarto, pedi chuva ao céu e choveu. De vez em quando, quase raro, algo na imensidão do “vazio” cósmico me atende. Não é Deus, eu sei!
Milagrosamente também, no dia de véspera desse feriado, dormi, intensa e profundamente, como há muito não dormia! Insones e “workaholics” não dormem, apenas são.

Antes de dormir, um vento estranho (como os que assolam soturnamente aos quartos assombrados das tantas páginas que li e dos filmes que vi) invadiu também todo o continente do meu quarto e espalhou um volume inteiro, que estava sobre a cama, ainda não encadernado e paginado, de uma monografia intitulada provisoriamente de “Bioconstruções”, na qual me detinha em sua revisão.

Olhei o calhamaço de papéis espalhados a esmo no chão... Não tive disposição de ordená-los no mesmo arranjo. Quase lamentei, mas sou pouca afeita à lamentação. Prefiro maldizer que lamentar. Nada arrumei... Coloquei à prova minhas idiossincrasias.

Contrariamente à normalidade da minha natureza ordenadora e disciplinada (no tocante as coisas condizentes ao ofício de professora e à ordem doméstica), deitei na cama e dormi, ao lado de alguns enfadonhos livros de consultas técnicas e junto de outros de cabeceira, que de tanto lê-los tornaram-se quase meus amantes.

Acordei com a manhã ainda se fazendo aurora, em trânsito, suave, doce e um pouco fria... Orvalhada, com cheiro e atmosfera de terra úmida. Então percebi o quanto chovera na madrugada. E ainda chovia. Presente! Ai que presente! Chuva pra mim é como um desejado brinquedo de infância que estar por vir. Adoro Chuva. A-DO-RO!

Da cama, olhei de soslaio para todas as generosas janelas que circunscrevem o espaço do meu quarto em “infinito particular”. Percebi que ainda chovia delicadamente. Uma sensação dialética de felicidade e tristeza invadiu meu ser eterna e coesamente dividido de intersecções oponentes, como a maior parte dos pensamentos meus. Pensei na situação de imersão involuntária do Estado de Santa Catarina. Logo passou. Talvez por um pequeno egoísmo ou, simplesmente, por estar à sorte e ao manejo de Eros se sobrepondo a Thanatos. Regida por um diferente e estranho agora, “aparentemente” circunstancial e provisório, da tristeza me desfiz. 

Levantei-me e fui à janela. Percorri todo o corpo que a um só golpe meus olhos puderam abraçar (sem congelar a paisagem descortinada, sem olhar fotográfico) da extensão do Rio Capibaribe, que por várias e tão belas formas já foi e é cantado em poema e prosa.

Nesse dia de Santa, ninguém caminhando às margens do rio, nem mesmo os tristes cachorros sem dono ou os seis gatinhos amigos meus. Na Avenida Beira-Rio, poucos carros recalcitrantes, alheios ao mistério do dia, a passar devagar, “respeitosos” ao silêncio daquele início de manhã.

A chuva começou a aumentar e lavar o asfalto, com desenhados pingos, agora grossos, como nos mangás japoneses (algumas vezes também molho o chão com pingos de choro como os que choram certos personagens infantis desses mangás). Preparei-me, como para um ritual de purificação, e sai para caminhar na chuva, coisa que faço quando posso, uma vez que pouco se chove nessa cidade. E, na chuva, eu - feita de ar em água do céu, comecei a percorrer o trajeto das margens do rio.

Num dado momento, uma súbita vontade me invadiu de correr-correndo, como o “pequeno-grande” Antoine Doinel (Alter ego de François Truffaut) correu-correndo para o mar, no filme “Os Incompreendidos”. Daí, comecei a pensar que deveria ser assim que Clarice Lispector, minha Clarice, se sentira algumas vezes na sua vida. Continuei a correr e de cheio, outros pensamentos me solaparam abrupta e insistentemente - pensei no que alguns “insólitos”, “incômodos” e “(des)/conhecidos” observadores recentes - dura e “cruelmente” me disseram, cada um à sua maneira, sobre a minha relação de identidade/identificação(?), de transferência(?), de obsessão(?) com a escritora que tanto amo e que cujo amor não me faz mover-me de mim.

A sensação intermitente de não sei o quê, sem rosto e nome, fantasma, que me acompanha e persegue a tempo perdido e gelado, foi passando...
Lembrei do arquiteto Frank Gehry, de sua impactante e controvertida arquitetura (que defino como Gordon Cullen o faz para conceituar a palavra-fenômeno Cidade: “uma ocorrência emocionante no meio ambiente”) e do que diz o arquiteto do seu inventivo processo de criação de formas arquitetônicas: “Começar?!... como é difícil começar!”

Então, corri. Corri não mais para o mar, como fez Antoine Doinel, ou para o mar como o fez, não estou bem certa. Corri-correndo para mim mesma, e fiz essa crônica de pedaços de mim, antes que um dia amanheça morta e com o seguinte atestado de óbito: “morreu de Clarice”, mas ao contrário de sua causa mortis, sem uma única só palavra propriamente sua.

Não quero morrer de Clarice (Haia = Vida) Lispector (Flor de Lis no peito/coração), pois justo não seria com ela, Clarice – Estrela da minha vida inteira. Mas viver... Viver como eu mesma... E à força das suas palavras e pensamentos somar a força das minhas próprias palavras-inteiras, com os meus sentidos e sentimentos do mundo.


Roberta Rodrigues Aymar.



*Recife, 8 de dezembro de 2008.
Acho que morri novamente.
 Também nasci mais um pouquinho.
 Um dia antes do aniversário da morte da escritora Clarice Lispector (9 de dezembro) e a dois dias da data do seu nascimento (10 de dezembro).


À Clarice, o meu amor eterno.


Citações & Apropriações

"Pensar é um ato, sentir é um fato!"





Fotomontagem

Clarice: Entorno






Registro Audiovisual


Clarice X Clarice
















Cinema

A Hora da Estrela

(Da Palavra à Imagem)











Na Própria Arte

Clarice: 
Um Coração Mais Que Selvagem!
Perto do Coração Selvagem!


"... e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo."










Na Persistência da Memória do Tempo
 


Morte de Clarice Lispector

(Por Ferreira Gullar)

Poema em trânsito 

a caminho do aeroporto numa bela manhã ensolarada 

 


Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de São Francisco Xavier 

E o clarão do teu olhar soterrado resistindo ainda... 
O táxi corria comigo à beira da Lagoa
na direção de Botafogo 

E as pedras, e as nuvens, e as árvores no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós.
 

*******






Em seu Jazigo Perpétuo

Sepultamento da Escritora 
Clarice Lispector


12 de dezembro de 1977

http://almanaque.folha.uol.com.br/ilustrada_12dez1977.htm



Um comentário:

  1. EU AMEI PERFEITO PARABENS . BOLGGER MTO LEGAL E É UMA PÉROLA EU SOU FÃ N° 1 AMOOOOOOOOOOOO DE MAIS TUDO Q CLARICE ESCREVEU E GOSTARIA MTO DE TER TIDO A HONRA DE TÊ-LA CONHECIDO. PENA Q SO SE FOR EM OUTRA VIDA. MAIS TUDOP É TÃO PERFEITO DE UMA SENSIBILIDADE ABSURDA AMOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

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